A Falsa Alegria e a Verdade Inescapável: Lições do Teste de José aos Irmãos

 

A Falsa Alegria e a Verdade Inescapável: Lições do Teste de José aos Irmãos
Por Endriele

Então, José lhes apresentou as porções que estavam diante dele, e a porção de Benjamim era cinco vezes maior do que a dos outros. E beberam com ele até ficarem alegres. 

José testa os irmãos ao dar a Benjamim um tratamento diferenciado, porém, sem inveja, os irmãos de José bebem livremente juntos. Os irmãos de José comeram e beberam como se não houvesse fome na terra e regozijaram-se com a generosidade do governante à cabeceira da mesa. No entanto, foi uma alegria falsa e transitória, pois os irmãos ainda não haviam lidado com seus pecados. Uma coisa é sentir-se aliviado, outra, bem diferente, é ser perdoado e reconciliar-se. Era preciso que pedissem perdão a José pela forma como o haviam tratado no passado e deviam fazer o mesmo com o pai, pelo fato de terem enganado o patriarca e entristecido seu coração tão profundamente.

A sensação de falsa alegria e paz é perigosa, e pensar que a vida está em ordem com Deus só porque tudo está correndo bem e os problemas não parecem tão ameaçadores é pedir por uma tragédia. Como aconteceu nos dias de Noé e nos dias de Ló, assim também será quando Jesus voltar (Lc 17.26-30). As pessoas se sentirão seguras de si enquanto vivem sua rotina diária e cultivam seus pecados, mas o julgamento sobrevirá e será inescapável. Qualquer coisa que fique aquém do arrependimento humilde não trará a reconciliação com Deus nem com os outros. “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv 14.12). Como o homem rico da parábola de Cristo, as pessoas têm uma falsa confiança, pois creem que seu futuro está garantido apenas para, mais tarde, descobrirem que deixaram Deus de fora da sua vida (Lc 12.16-21). O próximo ato desse drama trará à tona essas questões e, por mais estranho que pareça, a ação se concentrará em torno de Benjamim, o jovem cujos irmãos acreditaram que estava acima de qualquer suspeita e livre de qualquer perigo.

Richard M. Weaver, professor de letras na Universidade de Chicago, escreveu um livro chamado As Ideias Têm Consequências. A mensagem do livro era simples: se você não vive de acordo com a verdade, então deve enfrentar as consequências. A sociedade não apenas rejeitou a verdade, como também não acredita que há consequências. No mundo de hoje, a verdade é aquilo em que você deseja acreditar; e se você acreditar na coisa errada, não precisará se preocupar com as consequências — elas não existem. Uma vez que simplesmente não há absolutos morais, você pode fazer o que bem entender e sair ilesos. “Sabei que o vosso pecado vos achará” (Nm 32.23) é uma ideia que não se aplica mais à nossa realidade. Se não há uma verdade, não há consequências. Os irmãos de José haviam seguido essa filosofia e encoberto seus pecados cuidadosamente. Não haviam dito a verdade e, aparentemente, nenhuma consequência mais séria havia surgido. Além disso, não tinham medo de ser descobertos, pois a única pessoa que podia testemunhar contra eles era José, e ele certamente estava morto. No entanto, a verdade havia aparecido, tanto para o bem deles como para que o plano divino de salvação do mundo fosse bem-sucedido. A alegria e paz reais jamais podem basear-se em mentiras, devem ter a verdade como fundamento. Edificar sobre mentiras é como edificar sobre a areia e chamar para si o julgamento divino. Sem retidão não pode haver paz legítima, apenas uma trégua muito frágil que, mais cedo ou mais tarde, entra em erupção e transforma-se em guerra.

Adaptado de Warren Wendel Wiersbe. 

O Desafio de lidar com as adversidades

O Desafio de lidar com as adversidades

Por Manoel Marciape

Dizer que acredita em Jesus não faz de ninguém um cristão.

Não adianta ir à igreja todo santo dia e viver de aparências…é enganar-se a si mesmo, pois a Deus ninguém engana. E no final da caminhada estará um abismo sem volta.

Primeiro uma curiosidade. Leia esta oração:

 

 “Dai-me, Senhor meu Deus, o que Vos resta;

Aquilo que ninguém Vos pede.

Não Vos peço o repouso nem a tranquilidade,

Nem da alma nem do corpo.

Não Vos peço a riqueza nem o êxito nem a saúde;

Tantos Vos pedem isso, meu Deus,

Que já não Vos deve sobrar para dar.

Dai-me, Senhor, o que Vos resta,

Dai-me aquilo que todos recusam.

Quero a insegurança e a inquietação,

Quero a luta e a tormenta.

Dai-me isso, meu Deus, definitivamente;

Dai-me a certeza de que essa será a minha parte para sempre,

Porque nem sempre terei a coragem de Vo-la pedir.

Dai-me, Senhor, o que Vos resta,

Dai-me aquilo que os outros não querem;

Mas dai-me, também, a coragem

E a força e a fé.”

 

A oração que você acabou de ler foi encontrada no corpo do Aspirante paraquedista Zirnheld, das Forças Armadas Francesas Livres, morto em combate em 1942 na Líbia, norte da África, durante a Segunda Guerra Mundial. Ela foi adotada pelo Exército Brasileiro em 1969 como sendo a Oração do Paraquedista Brasileiro (encontrei esta história em  https://www.25bipqdt.eb.mil.br/pt/cancoes-para-quedistas/84-oracao-do-para-quedista )

Você teria coragem de fazer esta oração? Se não tem, não se preocupe, porque como veremos adiante, não precisamos pedir a Deus para que a insegurança, a inquietação, a luta e a tormenta aconteçam em nossas vidas. Por isto, o desafio de hoje é como manter a fé em meio às adversidades da vida.

Sem meias palavras, vamos ao que interessa:

1º) A adversidade certamente virá. Precisamos ter consciência de que o mundo que Deus criou não foi projetado para jazer no maligno, e muito menos o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus para conviver com a iniquidade. A maior contaminação deste mundo é o pecado que se encravou na alma humana, e que destruiu a sua comunhão com Deus. Todas as outras formas de contaminação derivam disto.

O desequilíbrio econômico, social, ambiental, psicológico, fisiológico, espiritual e tudo mais que vivenciamos no mundo decorre do imenso vazio deixado por Deus na existência humana, que nada deste mundo consegue preencher. É este desequilíbrio interior projetado para o ambiente e as relações sociais que ocasiona as adversidades, crises e tormentas que assolam o ser humano. Cito exemplos: econômicas-desemprego; sociais-violência; ambientais-poluição; psicológicas-ansiedade; fisiológicas-enfermidades; espirituais-incredulidade. Em nossa caminhada cristã somos constantemente desafiados a permanecer firmes na fé em meio a situações adversas.

Talvez um dos maiores problemas na nossa caminhada seja não atentarmos para o fato de que a adversidade certamente virá, e por isto geralmente somos surpreendidos por ela, ficamos perplexos e damos margem a todo tipo de sentimento e atitude que desagrada ao Senhor: murmurar (reclamar da vida) como os israelitas no deserto, esmorecer como Esaú, desobedecer a Deus como Saul. Some-se a isto a impaciência, o medo, a ira e a incredulidade.

Se reconhecermos a adversidade como algo próprio deste mundo desequilibrado não seremos surpreendidos. Poderemos nos antecipar a ela seguindo os conselhos e atitudes de Jesus, como vigiar, orar, jejuar e ter bom ânimo, por exemplo. Então, quando ela vier, estaremos fortalecidos na fé para suportá-las e superá-las para a glória de Deus.

2º) A adversidade certamente passará. Tão certa quanto a vinda da adversidade é a sua partida. Lembre de quantas situações desagradáveis pelas quais você já passou…sim, passou…a adversidade não é perpétua neste mundo.

Enquanto estamos no meio da tempestade o tempo parece não passar, e parece que nunca sairemos dela, mas de um jeito ou de outro saímos. Cansados, mas saímos. Doloridos, mas saímos. Mas também ficamos mais experientes e prudentes, e procuramos maneiras de evitar que aquela situação difícil se repita. Alguém aí já fez aquele ritual de cortar e queimar os cartões de crédito? Eu já. Desde então, como não me sinto seguro para lidar com eles, não os tenho. E o principal: você pode observar que é o agir de Deus que não te deixa sucumbir às adversidades da vida.

3º) A adversidade é necessária. Essa doeu, não? Mas é verdade. Muito mais do que na prosperidade, na bonança ou na claridade, é na adversidade, na tempestade e em meio a trevas que brilham os verdadeiros filhos de Deus, aqueles que compreenderam que foram chamados para ser a porção visível do Deus invisível…muito mais do que vidas abençoadas, abençoadores de vidas para a glória do Pai. A maneira como passamos pela adversidade dará testemunho da nossa caminhada com Deus. A adversidade coloca em relevo a verdadeira família de Cristo e pode conquistar almas. Eu fui conquistado por gente assim, que me estendeu a mão num momento em que eu acreditava que nem a morte me queria. Por outro lado, se a nossa atitude durante as crises não refletir o caráter de Cristo certamente estaremos caminhando para trás e nos arriscando a fazer com que outros tropecem.

4º) Sem adversidade não há vitória. O enfrentamento e a superação das situações nos tornam vencedores com Cristo. Este enfrentamento não consiste em lutar contra carne ou sangue, mas sim em buscar refúgio, livramento e refrigério em Deus. Somente confiando em Deus poderemos experimentar o que cantavam os filhos de Corá:

“1 Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.

2 Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares;

3 ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam.”

(Salmo 46.1-3)

 

5º) Manter o foco em Deus é fundamental. Para passar pelas adversidades penso que, antes de tudo, precisamos ter foco. É como fazem os atiradores de elite quando selecionam um alvo…todo o seu conhecimento conduz a uma concentração que os torna capazes de atingir o alvo, apesar da distância e do ambiente adverso (neve, chuva, ventos, escuridão). Se ele não se disciplinar para focar no alvo apesar das circunstâncias adversas jamais será um atirador de elite. Pois é com este mesmo empenho e disciplina que devemos olhar para Jesus, não importa o que esteja ao nosso redor. Estar com Ele é o nosso alvo.

“12 Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

13 Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,

14 prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3.13-14)

Conclusão

Antes de encarar as adversidades que viriam em Seu ministério neste mundo, Jesus foi para o deserto e lá ficou por quarenta dias, sendo tentado pelo inimigo. Sempre que tinha uma oportunidade Ele se retirava para orar, dando exemplo de que é fundamental mantermos firme nossa comunhão com Deus e que nada neste mundo pode interromper nossas orações. O Senhor Jesus também antecipou aos apóstolos tempos de adversidade que os crentes enfrentariam (João 16), mas não sem um motivo especial:

“33 Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”. (João 16.33)

                   Por todos estes motivos não devemos deixar que as crises, as adversidades e as contradições da vida   prejudiquem nosso caminhar com Jesus. Que cada um de nós procure estar sempre se consolando e fortalecendo na Palavra de Deus, na oração e na comunhão uns com os outros, pois Ele é conosco, não nos deixará, nem nos desamparará. A Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

 

Abraço fraterno,

Manoel Marciape

Escolhas

Escolhas

Por Marcos Danilo de Almeida

 

Vamos falar de morte? Talvez você não esperasse que esse texto começasse assim, mas vamos nos esforçar para que você seja recompensado (a) se decidir lê-lo até o fim. Sentimos a necessidade de demonstrar que a palavra morte não possui apenas uma acepção biológica, aliás, esse é o menor dos seus sentidos. Em sua essência morte é o afastamento de Deus, portanto, culpa de cada um em particular que se desvia Dele. E na contramão do entendimento popular, através do que é relatado acerca da vida de Enoque em Gênesis 5, gostaríamos de defender que a morte não precisa ser definitiva.

O que Deus advertira anteriormente em Gênesis 2.16,17 é visto de maneira chocante através do relato sequencial das mortes de todos os descendentes de Adão. Muitas pessoas podem ler os cinco primeiros capítulos de Gênesis e creditar a culpa do pecado e da morte a Adão. Mas o que importa não é de quem é a culpa, mas o fato de sabermos que a morte não é definitiva para aqueles que possuem comunhão com Deus.

Definir o antônimo de morte, “vida”, também não é uma tarefa fácil. Mas com certeza perder a vida não significa a perda das funções vitais do corpo humano. Vida, para Van Groninger, “não é o resultado de combinações e processos biológicos. É, antes, o resultado do desejo de Deus de criar por meio da sua vontade soberana, da palavra e do Espírito cooperador”. O autor vai além e desenvolve o conceito de vida ainda mais: […] a vida humana foi produzida para existir e continuar eternamente, […] deveria ser experimentada por uma existência consciente nos contextos social e cultural (…) sempre em comunhão com sua fonte: o Deus Vivo.

Se a vida é estar “plugado” na fonte de energia. A morte, “é a separação espiritual das personalidades humanas da sua fonte doadora e mantenedora de vida, o Deus vivo eterno”. Paul House afirma que a morte é “a penalidade reservada pela desobediência no Éden”. Defendemos este posicionamento: vida é ter comunhão com Deus e morte é a ausência desta comunhão.

Nos posicionar desta forma nos traz um outro problema: “Como entender a morte de tantos personagens bíblicos que tinham comunhão com Deus mas ainda assim morreram fisicamente?” O Novo Testamento lança luz sobre esta questão. O texto de Mateus 22.23-33, em especial o verso 32, nos lança luz sobre o assunto: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó! Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos”. Jesus proferiu estas palavras durante um embate com os saduceus que o evangelista afirma não crerem na ressurreição. Comentando o texto, D. A. Carson faz a seguinte observação: “Se Deus é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó mesmo quando se dirige a Moisés cem anos depois da morte dos três primeiros patriarcas, então eles deviam estar vivos para ele (v. 32), ‘pois para ele todos vivem’ (Lc 20.38). Deus é o Deus eterno da aliança, por isso, é inconcebível que sua bênção cesse quando seu povo morre”.

A morte física é tão somente uma separação temporária do eleito antes que este possa receber um corpo glorificado e desfrute da comunhão eterna com o Pai. Jesus, nosso represente depois de Adão, triunfou sobre a morte a fim de garantir que um dia haveremos de ressuscitar como Ele também ressuscitou.

Mas voltemos a falar de Enoque. Seu nome significa “dedicado” ou “consagrado”, o que é extremamente apropriado para o personagem que “perambulava” com Deus, vemos que ele é honrado pelo autor da epístola aos hebreus na chamada “Galeria da Fé” (Hebreus 11) e também citado por Judas.

Enoque “retrata a intimidade, que é a essência da piedade veterotestamentária. Isto, e não o moralismo popularmente atribuído ao Velho Testamento, constitui terreno comum a Enoque, Noé e outras personalidades bíblicas”. Enoque e Noé se destacam em Gênesis 5 pois se relacionam com um outro personagem da história: Deus. É a sua ‘caminhada com Deus’ que explica porque Enoque não morreu. Ao andar com Deus, Enoque toma uma decisão contrária a que Adão tomou em 3.8, onde este opta por se esconder de Deus depois de haver pecado. Mas é a mesma atitude que Noé tem em 6.9. Também encontramos paralelos na narrativa de Abraão, quando em 17.1, Deus o exorta a andar em sua presença e ele afirma tê-lo obedecido em 24.40.

Olhando apenas para Gênesis 5 talvez não consigamos ver que a retomada do relacionamento com Deus é mediada exclusivamente por meio de Cristo. Vemos que andar com Deus, e por conta disto buscar a santificação é a solução para o pecado (que só acontecerá em definitivo quando formos glorificados). Caminhar com Deus e desfrutar de um relacionamento com Ele é uma atitude individual que não é transmitida geneticamente para os descendentes. O filho biológico de Enoque, Matusalém, também morreu como consequência do seu pecado em Adão. É através de Noé que Deus preservará a humanidade no episódio do Dilúvio e mais uma vez reafirma que a solução para o problema do pecado é andar com Deus.

Iavé nunca foi pego de surpresa pelo pecado de Adão, ele sempre teve um plano perfeito para dar cabo aos seus objetivos gloriosos. Esse plano nunca foi “esquecer” e/ou “perdoar” a dívida, pois se Ele assim fizesse estaria contradizendo sua natureza santíssima. Assim, ao longo de todo o capítulo 5 de Gênesis vemos a humanidade experimentar as consequências de sua rebelião contra o seu Criador.

No capítulo seis temos uma escalada do pecado a tal patamar que somos informados que a solução dada pelo Criador é destruir os homens que outrora foram criados. Ainda assim, a graça de Deus é vista no ato dele mesmo conservar para si uma linhagem que passa por Sete, Enoque, Noé e chega até os patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Deus continua demonstrando o seu amor por esses homens ainda que estes não demonstrem o amarem de volta e preserva o seu povo mais uma vez no Egito e ainda depois do falecimento de Moisés e Josué.

A história segue por longos anos até o despontar de um novo tempo, a era escatológica que brilhou ao nascer Jesus, o Deus que se encarnou homem para reverter os efeitos do pecado de Adão, nosso primeiro pai. Cristo, o segundo Adão, é nosso novo representante judicial diante do Reto juiz e morreu em nosso lugar a morte que era nossa. Na cruz, Ele experimentou da agonia de estar afastado de Deus por alguns instantes e por fim pagou de uma vez por todas a dívida mortal que pesava contra toda a humanidade.

O Antigo Testamento é cheio de genealogias, no Novo elas são raras. A última vez que encontramos a narrativa de alguma genealogia nas Escrituras é quando Mateus e Lucas traçam a ascendência do Messias. Finalmente nos tornamos capazes de entender que “após Cristo não há mais nomes a serem citados. Ele é o fim de tudo, nosso destino. Todos somos chamados pelo nome dele: cristãos”.

A mitologia apocalíptica em torno do número “666”

A mitologia apocalíptica em torno do número “666”

Por Marcos Danilo de Almeida

 

O último livro da Bíblia, o Apocalipse, escrito pelo apóstolo João, é um prato cheio para quem gosta de encontrar significados ocultos escondidos na Bíblia. Além das Escrituras, por si só, serem o livro religioso mais intrigante já escrito, a temática do Apocalipse é a cereja do bolo para os curiosos acerca dos acontecimentos que ocorrerão nos últimos dias.

O objetivo deste artigo não é suscitar polêmicas, mas desmitificar o que chamamos de “mitologia apocalíptica”. A Doutrina Reforma não é famosa por ser “novelesca”, ou “hollywoodiana”, mas é conhecida sobretudo por seu apego às Sagradas Letras. No decurso das próximas linhas, tenhamos em mente a máxima da Confissão de Fé de Westminster de que “a Bíblia interpreta a Bíblia”.

O gênero literário em que foi escrito o livro de Apocalipse é muito peculiar, trata-se de um híbrido de literatura apocalíptica, profética e epistolar. O que faz com que não haja, segundo conclui Blomberg, “maneira alguma de predizer com antecedência até que ponto uma obra dessas será literal ou figurada”.[1]

Muito foi dito e especulado acerca do significado por trás do número “666”, cabe a nós olharmos para o texto bíblico onde ele é mencionado:

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. […] A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é 666. Ap 13.11, 16-18 – ARA.

O contexto imediato deste texto começa no capítulo 12, e abrange a chamada “trindade satânica” que compreende o dragão (12.1-17), a primeira besta (13.1-10) e a segunda besta (13.11-18). Se você estranhou o nome “trindade” para nos referirmos a Satanás, lembre-se do que Paulo escreve aos coríntios: “E isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz (2Co 11.14 – NTLH)”.

Ter isso em mente é fundamental para entendermos o significado deste número. Sugiro que se faça uma leitura do início do capítulo 12 até aqui para que o leitor perceba a enorme quantidade de paralelos existentes entre a “trindade satânica” e a “trindade divina”. De modo semelhante, o selo da besta é a forma de Satanás imitar o selo que Deus pôs em seus filhos antes da grande Tribulação (Ap 7.3).

Voltando ao texto atentemos para algumas coisas. Ele fala de uma “certa marca” sobre a mão direita ou sobre a testa e fala também que ninguém pode comercializar sem a marca ou o nome da besta ou o número do seu nome. Percebam que são três as coisas que permitem comprar e vender e que o número “666” é apenas o número do seu nome, não necessariamente a marca da besta.

As línguas hebraica e grega fazem uso de letras para indicar numerais correspondentes. A sugestão mais antiga é que o número “666” diga respeito ao imperador romano Nero César (54 a 68 d.C.)[2], uma vez que a transliteração de seu nome, em hebraico, somando-se o valor correspondente de cada letra totaliza 666. Este exemplo já é suficiente para demonstrar quão temerário pode ser esse tipo de interpretação. Primeiro porque o Novo Testamento, inclusive o livro de Apocalipse, foi escrito em grego e segundo porque o nome do imperador precisou ser adaptado para a língua hebraica de uma maneira incomum a fim de que a soma desse certo.[3]

Hollywood ironiza a numerologia no filme “The Number 23”.[4] Neste filme, o protagonista, vivido por Jim Carrey, é atormentado por esse número onde quer que esteja. À medida que o filme avança o telespectador começa a sentir-se incomodado tamanha a “forçação de barra” que os roteiristas fazem para que o número 23 encaixe e esteja presente em absolutamente tudo em torno do protagonista. Segundo G. K. Beale, mais de cem nomes foram propostos só na Grã-Bretanha entre 1560 e 1830. Até o nome de Hitler já foi calculado para totalizar 666.[5] A imaginação do interprete desconhece limites.

Tendo isto em vista, toda tentativa de se atribuir valores numéricos ao nome de qualquer personagem contemporâneo ou associar a marca a qualquer artefato tecnológico da modernidade é perder de vista o simbolismo que João usou e que devia ser perfeitamente compreensível para seu público original.

Todavia, não há como ignorar o simbolismo de alguns números bastante utilizados por João no processo de escrita do Apocalipse. Um destes números é o número 7, considerado pelos judeus como o número da perfeição e, portanto, associado a Deus. Como o diabo tem a tendência de copiar e imitar a Deus, vemos no número 666 mais uma tentativa de ser como a trindade, mas sem nunca conseguir se igualar a ela por causa de sua completa imperfeição.

Uma curiosidade que o leitor pode achar interessante é que o sexto selo, a sexta trombeta e a sexta taça descrevem o juízo de Deus sobre os seguidores da besta. Ao passo que, o sétimo selo e a sétima taça descrevem juízos que resultam no estabelecimento do reino e a sétima trombeta descreve o reino eterno de Cristo.[6]

Por fim, o apóstolo João faz uma alerta, que deve servir para mim e para você nos dias que vivemos: “aqui está a sabedoria: aquele que tem entendimento calcule o número da besta”. Com isto João não está orientando e incentivando uma busca desenfreada por descobrir alguém que tenha as letras de seu nome somadas 666. A sabedoria consiste em discernir acerca do que é perfeito daquilo que é apenas uma cópia falsa e barata do que é verdadeiro.

Meus irmãos, não se deixem enganar. Ouçam a voz que ecoa das Sagradas Escrituras: “Este é o caminho, andai por ele (Is 30.21 – ARA)”.

[1] BLOMBERG, Craig L. Introdução de Atos a Apocalipse: uma pesquisa abrangente de Pentecostes a Patmos. Trad. Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2019. p. 666.

[2] Para saber mais recomendamos a leitura do verbete “Nero” em: TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. Vol. 4. pp. 497-500.

[3] Para saber mais recomendamos a leitura de Craig L. Blomberg, op. cit, p. 704.

[4] Disponível em: <https://www.imdb.com/title/tt0481369/>.

[5] BEALE, G. K. Brado de vitória. Trad. Paulo Sérgio Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. p. 287.

[6] BEALE, G. K. Op. cit. p. 288.